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F..., PARA O AMOR!

por LA DIVA, em 25.08.14

Que probabilidade temos de encontrar o amor num encontro fortuito?

Provavelmente, nunca o encontraremos. Nem aí, nem em lado nenhum.

É o que a Raquel acha.

‘Porquê?’, pergunto-lhe eu.

‘Ora, porque, na verdade, ele não existe. É uma fantasia.’

 

Esta descrença da Raquel baralha-me um bocado. Como é que ela, uma mulher que sempre atraiu homens sem precisar de fazer nada de especial, pode ser tão descrente?

 

Mas, afinal, para que é que ela lhes dá trela?

 

‘Eu não sou descrente. Sou realista’, sentencia, senhora do seu nariz.

Ah, sim?

Então, conta-me lá:

‘Quanto é que gastaste nesta tua última fantasia?’

Ela faz as contas por alto.

Quase tanto a preparar-se para o último encontro amoroso quanto o que gastou com a mini-mini casa nova.

 

A Raquel gastou 1.000,00€ na nova casa.

À volta da nova casa o mundo ainda não parou de rondar. Mas ela acha que, apesar da confusão, fez um bom negócio.

 

A Raquel gastou quase outro tanto para se preparar para um encontro com um homem. Ela achou que ia ser um encontro amoroso, e não apenas sexual. Ele parecia muito enternecido, as mãos tremiam quando lhe tocava ao de leve nos cabelos compridos. ‘És tão bonita’, dizia ele, incapaz de parar de olhar para ela.

 

Comprou roupas bonitas, cremes perfumados e outros produtos de beleza. Fez um alisamento japonês ao cabelo que a deixou a parecer-se com a Megan fox. E foi a um spa de luxo.

 

Pelos seus cálculos ela acha que perdeu a cabeça e gastou o equivalente a 3 semanas de trabalho no restaurante. Fê-lo porque se encantou com o olhar com que o homem a contemplava.

Não pensava ir muito depressa para a cama com ele, mas acabou por acontecer.

 

Na casa dele, ela entrou em quartos que estavam cheios de brinquedos porque ele estava há anos à espera que a filha pequenina lhe fosse devolvida, que um tribunal lhe desse razão e obrigasse a ex-mulher, que lhe roubou a filha, a devolver-lha. Se calhar a filha já tinha crescido, mas ele não devia ter dado por isso tão parado no tempo ele tinha ficado.

 

‘A filha também é minha, e nem devia ser dela. Nunca mais, daquela mulher malvada’, diz ele.

 

A Raquel fica parada a olhar aqueles brinquedos todos. A tristeza na voz do homem.

 

‘As crianças filhas de pais separados ficam sempre com as mães’, diz ainda, com amargura.

 

Ele não se conforma e não para de falar sobre o assunto.

A Raquel fica com vontade de se ir embora. É uma estória demasiado complicada e ela não quer fazer parte dela. Nem de um só bocadinho. Ela não lhe pertence.

Mas ele pede-lhe para irem para a sala e põe uma música a tocar.

Depois, faz-lhe um pedido:

‘Raquel, dança comigo, assim, devagarinho.’

Surpreendida, ela deixa-se ir no swing.

O homem está a dançar com os dezoito anos dele e os dezasseis de uma namorada. Há um brilho de adolescente no olhar dele. A Raquel não sabe onde é que o homem enfiou o resto dos anos da vida dele. Talvez naqueles quartos cheios de brinquedos e esperanças mortas.

 

‘Foda-se’, diz-me ela, acendendo um cigarro. ‘Somos sempre a porra de uma fantasia de alguém.’

O fumo do cigarro evola-se no ar em pequenas argolas.

 

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publicado às 15:58



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