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A CARREIRA DA GAJA GIRA ...

por LA DIVA, em 20.08.14

... começa logo aos três ou quatro anos, e é se não for antes, quando nos começam logo a pôr lacinhos cor de rosa na careca. É nessa altura que, sob a batuta da gente crescida, começamos a treinar para a carreira. Ainda tropeçamos nos pés e a passerelle passa por debaixo das mesas. Por enquanto, ainda só vemos pernas e, assim, é natural que nos concentremos nelas primeiro, as agarremos e as apalpemos. Ninguém se chateia com isso.

 

Às vezes choramos porque vamos ao chão e faz dói-dói. Mas também nos fartamos de rir e somos bem recompensadas. Não há nada de especial nisto. É como em muitas artes nobres, a dança clássica ou a tocata ao piano. Tem de se começar cedo e nunca mais parar de praticar se se quer atingir a perfeição.

 

Adoro quando apanho estes pedaços de carreira em construção das nossas carreiras de lolitas pequenas. E isso acontece à força do amor, do amor de quem realmente nos ama. Porque quem nos ama pega-nos ao colo e belisca-nos as bochechas, dá-nos palmadinhas no rabo e beijinhos ternurentos nas mãos. Dá-nos rebuçados, cada vez mais coloridos e frutados, e roupinhas sexy para criança. Além disso, protegem-no do mundo exterior, que é sempre horrível e predatório.

 

Mas, o mais importante, é a recompensa de nos sentirmos giras, de nos dizerem que somos gajas giras, que temos uma carinha laroca e que tudo gira à nossa volta e... à altura do nosso palmo e meio. As gajas e os gajos grandes acocorocam-se para nos acompanhar. E eu confesso que gosto muito de os ver baixar até ao meu nível. Mas não julguem que isto se passa na intimidade do lar.

 

Nada disso.

É ali, à vista de toda a gente, no lugar mais público e, ao mesmo tempo privado, que pode existir, o café.

 

‘Cu-cu! Ó gaja gira!’, diz-me o dono do café.

 

A mulher dele, que eu adoro porque me deixa sempre ir vê-la a fazer os bolos lá em baixo na cozinha, repete:

 

‘Cu-cu! Lindaaaa! Linda, és muito linda!’

 

Acocoroca-se e eu finjo que quero ir ter com ela. Já aprendi que é isso que ela quer que eu faça:

 

‘ Cu-cu! Vem cá ao colo da titi!’

 

 

 

Nesta altura estou a rir desalmadamente, porque isto é para rir. Eu tenho de rir, porque se não o fizer vão pensar que estou doente e levam-me à pediatra. Tenho também de, ao mesmo tempo que rio, correr para ela mas escapar-me por debaixo de outra mesa. Eu sei que é isso que todos querem que eu faça. Sinto-me a ser observada pelo buraco da fechadura, mas não há nada a fazer a não ser aprender.

 

‘Ó gaja, és muito atrevida! Como te chamas? Diz lá o teu nome, anda, vá!’

 

Pronto, quando ouço isto, já sei que por hoje aprendi a lição e tenho o meu prémio simbólico de reconhecimento público de gaja gira. Ainda me sinto um bocado envergonhada, mas eles é que hão de encarregar-se de tirar-me essa vergonha da cara. Por isso, hei de perceber daqui a nada que esconder a cara atrás das mãos é só um truque.

 

‘Olha, repete lá: Eu sooouuuu muuuitoooo giraaaaaa! Repete!’

‘Olha, assim já ficas feia, a esconder a cara! Ai que cara tão feia!...

 

Claro que eu não quero ser feia. É que se for feia, nem sequer posso ser gaja, nem ganho coisas giras de gaja. Então digo:

 

‘Giraaaaa!’

‘Ora, vês, como tu já sabes’!

Claro que sei, podem não me chamar de Lolita, mas sou uma gaja gira, que com ser feia é que não levo nada.

 

 

 

Esta crónica teve um tempo real de exposição de 40 minutos, sob luz interior matinal, no café da Sara e do Fernando. Estiveram presentes:

 

Os pais da criança

A criança do sexo feminino

Outra criança do sexo feminino

O casal proprietário do café, mulher e homem

Três consumidores, que não quiseram declarar o número de contribuinte na fatura.

Eu, que observei,

e que também me recusei a dar o meu número de contribuinte. Não é por nada, mas é que acho um bocado pornográfico que o Estado me veja a beber os meus cafés na intimidade com os meus amigos. O Estado é o Humbert Humbert da Lolita, só que sem moral nenhuma e sem ir preso. Mas isto foi só um aparte, que nem deveria aparecer aqui na ficha técnica. Mas, já agora, outro aparte: realizei esta crónica sob efeito de consumo de uma droga estimulante que, porém, tirando essa coisa de ter de declarar que a consumi, é paga e tem taxa de iva incluída.

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publicado às 13:11


3 comentários

De Dora Mendes a 20.08.2014 às 15:27

Ah ahahaha, estou farta de rir a ler este texto. Mas arrepia, porque brinco muito com a minha filha de cinco aninhos a dizer-lhe que é a gajinha gira da mamã. Acho que tão depressa não vou voltar a dizer isto, pelo menos sem me lembrar deste texto.

De miak a 20.08.2014 às 23:04

Fantástico. Delirante. Obrigado.
(até vale a pena o trabalho extra de provar que não sou uma máquina, ali em baixo).

De La Diva a 20.08.2014 às 23:06

Obrigada a ambos :)

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